Não sou um exímio instrumentista como tu... mas esta foi a minha forma de te dar música: criando, de raiz, um conto que cantasse (metaforicamente) o meu extremado amor por ti - por ti morena que me sobressaltaste como ninguém.
Para salvaguarda tua e da tua reputação, quero aqui deixar claro que nunca te vi beber uma bebida destilada que fosse - quanto mais uma pérfida e pouco recomendável Macieira! Outro qualquer ter-te-ia oferecido um ursinho de peluche... eu oferto-te o que de melhor sei fazer: maus versos.
Escrever (novamente) que te amo há-de parecer um truismo!
Prefiro pois deixar tudo em aberto!
Dás-me tu uma chance?
Post Scritpum: o conto deve ser lido da primeira para a última postagem na etiqueta
"1 amor em 2 rodas"
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
o Clube dos Poetas Mortos...
Dizem que uma desgraça nunca vem só – e dizem-lo bem! A Rapariga da bicicleta vermelha tinha dado ao pedal, mas o Diabo resolveu logo em seguida dar o ar da sua graça – e “dar um ar da sua graça” era um eufemismo do caraças pra caracterizar as fuças com que me apareceu à frente!
Pois mal grado as minhas desventuras amorosas com a Rapariga da biciclete vermelha, eu estava a dar baile ao Diabo com aquela aposta dos versos... E Mefistófeles vendo que dançava, pra não perder o pé, maquinou um esquema - e para não perder a parada arquitectou uma acusação de plágio. Plágio: que descaramento! Se ainda fosse de mau gosto aceitava, que o poema em questão não era grande espingarda… e eu nunca fora propriamente um poeta de bons versos...Mas "plágio": que grande lata!
Eu lia o Vermelho e o Negro quando apanhei uma passagem na qual se citava um verso de uma composição poética francesa do século XVI. O dito verso explicava que “os humores das mulheres variam, variam”. Achei o tema interessante (dada a minha recente condição de “abandonado” pla Rapariga da biciclete vermelha) e desenvolvi. Sinceramente, o poema não era dos melhores… Agora, plágio! Pelo amor de Deus! Eu nem sabia falar francês, quanto mais entender o que eles escreviam no séc. XVI…
Porém, isso era o que menos interessava ao Mafarrico, cujas manobras faziam lembrar os expedientes de certos dirigentes do futebol que tentam ganhar na secretaria os jogos que perdem em campo...
Levou-me ele, portanto e no esfregar dum olho, ao Tribunal dos Poetas Mortos, mas aqui, ao contrário da justiça portuguesa, o processo rolou com grande rapidez. Num ápice tinha diante de mim o juiz: outro senão… O Fernando Pessoa (quem mais poderia ser?). Já atrás de si, tinha o Diabo os seus advogados e eles eram – acreditem! - às centenas, aos milhões, às toneladas! Pois lírico como era, esquecera-me que às tantas… às tantas, 9 em cada 10 advogados iam mesmo parar direitinhos ao Inferno! E eles (de facto) eram mais do que as mães! Todos alinhados pesquisando processos, consultando códices, lendo legislação à procura dum precedente, duma falha qualquer, de um esquivo argumento jurídico com que pudessem condenar. Até deitavam fumo pelas orelhas! todos em fila, fato e gravata, quilos de gel no cabelo todo puxado para trás… que horror! Era mais intenso o cheiro do gel do que o cheiro a enxofre exalado pelo Diabo.
Ainda assim, não me ralei. No fim de contas, o lirismo estava do meu lado e o Fernando Pessoa à minha frente… como é que eu podia perder? Só mesmo com jogadas sujas.
Modéstia à parte fiz uma defesa brilhante, partido do pressuposto que era prática corrente na literatura que certas obras pudessem inspirar novos trabalhos.... Tão rebuscada foi que até invoquei o Camilo, afirmando que plágio era o Amor de Perdição, cópia barata do Romeu e Julieta, pois tanto num como no outro, dois jovens amam-se apesar das desavenças familiares, tudo condimentado com um triângulo amoroso onde havia pelo meio um primo parvalhão da donzela, morrendo os três antes do fim da história… "Ora se a isto, que era tido como um «clássico» da literatura portuguesa, nunca pesara a acusão de plágio... como se atreviam a fazê-lo comigo...?"
Foi muita a minha conversa, mas maiores os pecados de Mefistófeles. Mas de qualquer modo não seria de estranhar, pois não? Se o Diabo não pecasse… quem pecaria? E na verdade, pecou o Mafarrico duas vezes: primeiro subornou o juiz e seguidamente… foi de uma atroz avareza no seu suborno!
Não que tivesse pago pouco por debaixo da mesa ao Fernando Pessoa. O problema ou o pecado – se preferirem! foi ter deixado de fora os seus heterónimos. Por fortuna era Quarto Crescente, a Lua ia alta e a personalidade dominante do momento era o Álvaro de Campos.
E o Álvaro de Campos, que não fora subornado e não podia ir beber umas "genebras" para o Martinho da Arcada, querendo pregar (por puro despeito, notem!) uma partida ao Diabo, resolveu fazê-lo a minhas expensas, não me enviando uma factura directamente debitada ao ministério das finanças (como agora é uso), mas decidindo, em conluio com os outros poetas mortos de sede!
Ajuizou ele, para que não restassem dúvidas, que eu deveria fazer uma declaração de amor inesquecível. Se o fizesse, se fosse realmente um poeta de "P" grande, ganhava a aposta e libertava a Rapariga da biciclete vermelha do vício da Macieira – e de permeio seria editado, salvando a minha alma da danação eterna nos infernos dos não publicados... E era pegar ou largar.
E eu, sem outras alternativas... peguei! Pois desta vez ou ia ou rachava. Foi por isso que comecei a escrever este blog – para minha salvação e resgate da Rapariga da biciclete vermelha! E é pla sentença pronunciada que hei-de encher o coração dos lisboetas de poesia. E é entre delírios diversos que (creio bem, pla Fé que me guarda!) que o nosso destino continua em aberto... Será o gesto inesquecível?
domingo, 27 de janeiro de 2013
o Divórcio
Tinha portanto feito
uma aposta com o Diabo e estava decidido a vencê-la! Meti mãos à obra e comecei
a escrever desalmadamente: mas escrevia versos para o Diabo ou para a Rapariga
da biciclete vermelha? Para minha vaidade ou para a salvação da rapariga que amava...?
Todos os estudos
indicavam o stress e as prioridades profissionais como causas maiores do
elevado aumento do número de divórcios, ano após ano... Mas eu não me ralava!
Por um lado não via telejornais, por outro... nós nem éramos sequer casados.
Sabia apenas que
tinha de escrever, escrever diariamente belos versos, pois o
Diabo não era parvo nenhum e queria ganhar dinheiro – de preferência muito, o
que não deixava de ser uma manifestação de grande lirismo por parte do Belzebu, tendo em conta a exiguidade do número dos que neste país, dito “de poetas”, efectivamente se dão
ao trabalho de ler versos, quanto mais desembolsar guito para os poder ler...!
Desta forma,
para avaliar a qualidade das minhas criações, tratou Belzebu de reunir o Clube
de Poetas Mortos (líricos como eu, mas com a bota entretanto batida). Assim, não só tinha
de escrever todos os dias um poema, mas tinha também de ser uma obra-prima
capaz de poder ombrear com os rigorosos padrões literários de muita e diversa gente
já morta e por isso mesmo… petulantemente consagrada! De arrasar com os nervos de
qualquer um – garanto-vos!
Mas eu todavia
estava animado por um ideal: Salvar a Rapariga da biciclete vermelha do vício
do álcool, resgatando para o mundo essa virtuosa pianista que caíra na
esparrela das Macieiras. E já agora... poder publicar, também! Mas sabem que
mais? Estava a dar baile ao Diabo! Com o frenesim dum doido, passava os dias a
rabiscar caderninhos, alheio a mais distracções que não a busca incessante de inspiração através dos chamados “paraísos artificiais”... Sim! Pois
se Dante descera aos infernos pela sua Beatriz, também eu podia muito bem ir ao
fundo da garrafa pla Rapariga da biciclete vermelha!
E como eu estava
em queda, meus amigos! Dei por mim a beber mais Macieiras que a minha musa – o que era realmente notável! Mas se isso tinha um óbvio efeito sobre
os meus estados de alma, que se tornavam perturbadoramente mais eufóricos e megalómanos...
pior se revelou a minha intensa, quase exclusiva dedicação à escrita. Deixara
de ter tempo para a nossa relação: era capaz de escrever soberbos sonetos sobre
os olhos amendoados da Rapariga da biciclete vermelha, mas era incapaz de lhe
espreitar a alma; redigia lindas odes ao seu ganchinho, mas enquanto me cingia
ao acessório estético, não percepcionava o caleidoscópio vasto das suas crises
emocionais.
E que crises
emocionais! Todos os médicos lhe diagnosticavam a mais completa cura, mas ela persistia
em queixar-se das dores: passaram-se os dias e semanas, mas tudo em vão! A
Rapariga da biciclete vermelha padecia do dedo mindinho – aquele dedo
mindinho que falhava um certo dó em semi-fusa, que fora mais tarde retalhado
numa desastrada tentativa de abertura da maldita lata de atum e em seguida
cosido em urgência com 13 pontos no Hospital de São José.
Seria tudo psicológico, uma espécie de complexo pós-traumático? De cada vez que tentava teclar, dores lancinantes, tolhiam-na... As marcas ainda
lá estavam, é certo! Mas as piores cicatrizes teimavam em sangrar-lhe, abertas
em chagas vivas, no mais profundo do seu íntimo ser. Ela adiara as provas e
deixara de tocar o piano, que agora mudo ganhava pó! Mas eu... eu nem dera por
nada, ou tomava tudo como um capricho passageiro: vivia cego de ambição – febril no tumulto de triunfar sobre o Diabo.
Que dias de pura insanidade vivia, que delírios de ebriedade! Mas hoje... hoje porém estou em crer que o
Diabo era eu! Ou que pelo menos o trazia no corpo, dirigindo-me a vontade e a
conduta para fins que de altruístas nada tinham.
Embarcara numa
aposta com Mefistófeles para salvar a rapariga da biciclete vermelha...? Embriagava-me
seguramente bem mais com miragens do que com as malditas macieiras! Ali estava ela,
definhando diariamente enquanto eu cada vez mais absorto me recolhia nos meus arabescos. Teria
deveras pactuado com o Diabo para a salvar? Com que enganos de alma me emborrachava!
Para a poupar a
mais aflições, decidira ocultar à Rapariga da biciclete vermelha o resultado e termos do
meu entretien com o Diabo. oh Cristo! Hoje percebo o erro que foi o meu silêncio: como poderia aquele anjo compreender o meu tolo optimismo, quando ela se afundava na mais sombria depressão? Como poderia ajuizar aquele ser delicado, subtil como a brisa de Maio, a grosseria do meu alheamento? Como poderia a virtuosa pianista perdoar-me os quiméricos projectos líricos, quando ela se sentia incapaz de teclar a mais simples melodia?
Não seria, face ao exposto, uma surpresa que nela fosse
crescendo um sombrio azedume e uma discreta mágoa por aquilo que só poderia
ser entendido como um crescente distanciamento meu, precisamente... precisamente na
altura em que a rapariga mais precisava de mim. Não deveria ter
sido uma surpresa. Ou pelo menos, não para quem estivesse minimamente atento
aos sinais... mas eu apenas tinha olhos para páginas em branco por preencher e
dead-lines por cumprir para o Diabo que me editaria.
Não deveria ter sido uma surpresa...
mas foi surpreendente: quando a bílis da rapariga da biciclete vermelha
explodiu de rancor, não se ouviu um grito, não se partiu um prato ou servido foi qualquer cliché temperamental. Não, nada disso! Quando cheguei a casa, franqueei a
porta e cruzei a sala... já lá não estavam o piano, a biciclete e a rapariga. A miúda partira:
o vento mudou e ela não voltou. Até hoje...
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Poema do Fausto
A minha aposta com o Diabo haveria de ficar registada em verso, retomando o tema do Fausto e servindo-me das semelhanças e estreitos simbolismos que entendia existirem entre o meu próprio apelido e condição, com o que no romance de Goethe era narrado.
Poema do Fausto
Tolas estrelas giram tão cegas,
tolo de ti que sempre te entregas:
nos livros já vinha escrita esta sina,
que em fatal sedução feminina,
fosse imolado em duro holocausto…
por Margarida… um certo Fausto.
Vinha nos livros e era previsível
que tu seguisses o traço tangível…
Malditos serão os que nunca caíram,
também os profetas que tudo previram!
Aprende que a falta, o erro e o crime
estão nos maus versos, ainda que rime.
E mesmo que negues, esperneeis e cismes,
apenas te resta patinho feio seguir os cisnes.
Poema do Fausto
Tolas estrelas giram tão cegas,
tolo de ti que sempre te entregas:
nos livros já vinha escrita esta sina,
que em fatal sedução feminina,
fosse imolado em duro holocausto…
por Margarida… um certo Fausto.
Vinha nos livros e era previsível
que tu seguisses o traço tangível…
Malditos serão os que nunca caíram,
também os profetas que tudo previram!
Aprende que a falta, o erro e o crime
estão nos maus versos, ainda que rime.
E mesmo que negues, esperneeis e cismes,
apenas te resta patinho feio seguir os cisnes.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Não apenas porque mete o Diabo na historia, mas também pelas idiossincrasias do blogger,
"1 amor em 2 rodas"
deve ser lido ao revés, isto é: do mais antigo para o mais recente dos posts.
"1 amor em 2 rodas"
deve ser lido ao revés, isto é: do mais antigo para o mais recente dos posts.
De resto, o enredo continua em aberto e o fim em disputa.
Recapitulando...
Foi neste capítulo da história de amor dum poeta de maus versos
pela rapariga da biciclete vermelha que ficámos:
Foi neste capítulo da história de amor dum poeta de maus versos
pela rapariga da biciclete vermelha que ficámos:
Eu fiz uma aposta com o Diabo para resgatar a moça das macieiras
e conseguir publicar um livro de má e melada poesia pra donas-de-casa mal-amadas...
Para tanto "apenas" teria de escrever 101 poemas em 101 dias.
Não seria tarefa nada, nada fácil rapariga...
o Diabo deve dinheiro à Banca...
O Diabo não tinha nada de muito concreto para vos dizer, mas a mim disse-me ele bastante... Primeiro explicou-me que, como eu nunca iria libertar a rapariga da biciclete vermelha do vício do álcool, viera buscar-me - para me poupar desde já a muitas maçadas e a mais Macieiras. Todavia, cofiando a barbicha, confidenciou-me que era porém um desperdício levar-me com ele, mesmo a solicitado pedido meu, dado que eu não deixava de ser um jovem “tããão talentoso” - e o Capeto acentuou as últimas palavras de modo particularmente sonso...
Eu desconfiava, porque se insondáveis são os desígnios de Deus, necessariamente manhosos seriam os meios do Mafarrico! Como lhe fizesse ver isso mesmo, atalhou na bajulação, passou à segunda Macieira e propôs-me uma aposta.
“Uma aposta!” – Exclamei eu! “Para fazer uma aposta mais vale vender-te a alma, não achas?”
Não, não achava o Demónio e não podia ser. Mefistófeles andava nas lonas e era agora um pobre Diabo. Um cibernauta qualquer - “um desses malditos anonymous” - tinha, através da Internet, feito um gigantesco desfalque nas contas secretas que ele depositara na Suiça e, pior que tudo! sucedera isso precisamente quando o Diabo tinha feito uns certos e nada vantajosos acordos com a Banca.
“É triste dizê-lo – chorava-me – mas nos dias que correm, até o grande Satã é um menino de coro, um verdadeiro cordeirinho, nas mãos da banca capitalista.”
Vivíamos tempos de crise. “Víviamos”? Vivemos! Tampouco o Diabo podia transformar pedras em pepitas ou fazer o milagre da multiplicação dos €uros porque havia um pacto de estabilidade a cumprir. Sim: um pacto de estabilidade a cumprir, pois a banca exigia “austeridade” e o próprio anti-cristo piava fininho diante das agências de rating! Ou vocês pensavam que foi o dito “viver acima das nossas possibilidades” que nos conduziu a este purgatório...?
Abram a pestana, meus amigos!
O Diabo ainda tentou o narcotráfico ou a venda ilegal de armas, mas nestes tempos tão agitados, as máfias russas têm mais poder de fogo e maior influência que o próprio e maquiavélico Mefistófeles.
“Uma tristeza” – Concluía ele: “E tive de dedicar-me a negócios estúpidos e realmente marginais como vender Enciclopédias, carros em segunda mão e até «francesinhas»”. Tinha por isso o Diabo uma cadeia de fast-food baseada em “francesinhas”! “As francesinhas do Inferno com extra-picante!" – o que não deixava de ser um plano bem diabólico: impingir às gentes inocentes comida gulosa com alto teor de gordura.
“Assim, como assim, sendo tu um talento por explorar – continuou ele – proponho-te uma aposta que nos pode render muito… muito indeed.” – e o diabo esfregava já as mãos de contente!
– “Se tu escreveres 666 poemas de amor para a rapariga da biciclete vermelha nos próximos 666 dias, eu liberto-a do vício do álcool e publico-te a obra lírica que, melada como é, destinada estará a ser um extraordinário sucesso literário entre as donas-de-casa mal-amadas. Deste modo eu ganharei milhões como teu agente encartado e tu... bem, tu ganharás um amor sem mais ressacas! Que dizes filhinho..?”
“E se eu perder? “- retorqui...
“Se tu perderes deixarei a rapariga da biciclete vermelha entregue a si mesma, ou seja... à Macieira, reúno o que possa dos teus versos e engendro-te um espectacular acidente envolvendo a tua, bicicleta um camião pesado desgovernado e um cruzamento com má sinalização, para te poder publicar postumamente - pois toda a gente sabe que o artista, depois de morto, sai muito mais valorizado.”
Ainda balbuciei um “Mas assim nunca perdes, Mefistófeles!”
Ao que ele rindo, replicou “Por alguma razão ainda me chamam Diabo!”
Ponto de ordem à mesa! É certo que a nossa dependência da Macieira estava a tornar-se realmente insustentável e medidas drásticas urgiam, ou a estória ainda acabava mal! Mas não pensem (nem por um segundo sequer!) que eu não tinha confiança na capacidade do meu amor e devoção poderem salvar a rapariga da biciclete vermelha do vício do álcool – e de permeio, salvar-me também a mim. Mas publicar! Ai publicar... Escutava agora a melodia melíflua de Mefistófeles insinuar-se na alma! Neste país, publicar poesia só com um grande padrinho ou pactuando com o Mafarrico! Ora, como o meu padrinho é um bate-chapa ali na Av. Gago Coutinho... resolvi jogar forte e apostar com o Diabo, regateando primeiro prazos e obrigações – pois (por aquele andar...) os nossos fígados podiam muito bem não resistir os tais 666 dias.
Após muita conversa, lá passámos do 666 para o 111 - ou do simbolismo satânico para os parâmetros editoriais, pois finos livros de poesia tinham mais saída comercial. Firmámos o pacto, rimos-nos muito e tudo selado foi com boa Macieira, claro está!
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Um diabo de saias
Ainda falava a
miúda em peso-morto... puxa! Suei as estopinhas pra levá-la em braços até ao
leito onde a bela (agora adormecida) ficou sossegadinha durante quase 24 horas a “curá-la”...
quer dizer: a restabelecer-se da síncope nervosa.
Ao despertar,
era já noite (a noite seguinte...) quando abriu aqueles lindos, lindos olhos de
Gioconda faiscando mistérios e clarões. Eu, claro, quedei-me atónito vendo-a dum só
pinote pular da cama e exclamando jubilosa um dos seus inconfundíveis “bom dia alegria!”...
Mas mais perplexo fiquei quando, ao passar por mim, me segredou libidinosa “vai
servindo duas Macieiras enquanto eu abro a lata de atum para o nosso
pequeno-almoço.” Oh Cristo! Como não haveria eu de amar profundamente aquela
rapariga...?
Mas foi então
que a nossa história de amor conheceu um volte-face… E meus amigos... esta
história bem precisava de uma reviravolta qualquer! Fui tratar
das macieiras, enquanto a rapariga da biciclete vermelha se predispôs a abrir a
lata de atum com aquelas mãos que (demasiadas vezes) lhe tremiam, com aqueles
dedos esguios e que, embora descoordenados falhando teclas, continuava eu fervorosamente a beijar-lhes as pontas... quando... Ai
terrível maldição!
“Aaaah!”
Ao escutar
aquele grito prenhe de toda a desgraça -
“Aaaah!” – larguei tudo: larguei até
as macieiras e já aterrorizado e sem pinga de sangue corri para a cozinha,
apenas para ver o dedo mindinho… o dedo mindinho da virtuosa pianista que tanto
teimava em falhar um certo dó em semi-fusa... completamente ensanguentado! Tinha-se
cortado a rapariga da biciclete vermelha ao abrir a lata de atum. Que desgraça!
E decerto porque
éramos duas almas perdidas, sem dúvida porque estivemos na presença de sangue,
talvez porque os cães uivassem através dos pátios traseiros e a Lua estivesse
Cheia… quando eu, vendo todo retalhado o dedo mindinho da rapariga da biciclete
vermelha; ao ter exclamado aos 4 ventos o desabafo lírico “Diabos me levem! Diabos me levem se não te salvo do vício da bebida, rapariga
da biciclete vermelha”, sucedeu (para espanto geral) que o Mafarrico em
pessoa (Ele mesmo!) resolveu dar um ar da sua graça.
Deu-se um
estrondo! Uma intoxicante fumarada invadiu a casa e começámos a escutar o ElvisPresley. Ao entrarmos na sala para desligar a aparelhagem, averiguar do fumo e
desancar nos vizinhos, já o Diabo se
servia de uma macieira. Ficámos escancarados, incrédulos e de boca aberta, pois claro! Mais
parecendo os três pastorinhos diante da Nossa Senhora de Fátima: Eu, a rapariga
da biciclete vermelha e a sua gata: a famosa Maria Callas.
Duvidem o quanto
quiserem! Estava lá, ainda me encontrava sóbrio e sei bem o que os meus olhos
viram:
A gata sei que
viu o Diabo pois eriçou-se-lhe o pêlo num ápice e raspou-se na gáspea dali para
fora… a rapariga da biciclete vermelha viu e escutou o Diabo porque me disse “olha que engraçado… já não tinha uma visão com
o Diabo ora… deixa ver… foi com aquela tribo de tuaregs no Sahara, tínhamos
experimentado uns cactos alucinógenicos, ora isso foi em... ahahaha! Mas isto é
super-realista! Agora pede-nos duas pedras de gelo, que graça…” Riu-se a
rapariga, mas tratou de entrapar o dedo mindinho, pegar na bicla vermelha e
pedalar de abalada e em urgência para o Hospital São José onde lhe coseram nada
mais, nada menos, que 13 pontos no seu dedo mindinho. E eu… bom... restou-me representar o papel da Irmã Lúcia dos danados, escutando a
pregação que o Diabo tinha a anunciar aos homens e pondo-me à conversa com ele.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
A cena da porrada!
6ª partitura
Até que a poucos dias da prova, resolveu a rapariga da biciclete vermelha dedicar-se exclusivamente àquele trecho. Foram horas e horas sempre às voltas com a passagem mais desafiadora... e horas e horas se foram em vã provação: findou-se o dia e a noite veio mas ela, dominada por uma febril e perfeccionista obsessão, prosseguia incansável e impetuosamente teclando sem cessar. E sempre e sempre teimava: “falha-me o dedo mindinho no dó em semi-fusa”...
Até que a poucos dias da prova, resolveu a rapariga da biciclete vermelha dedicar-se exclusivamente àquele trecho. Foram horas e horas sempre às voltas com a passagem mais desafiadora... e horas e horas se foram em vã provação: findou-se o dia e a noite veio mas ela, dominada por uma febril e perfeccionista obsessão, prosseguia incansável e impetuosamente teclando sem cessar. E sempre e sempre teimava: “falha-me o dedo mindinho no dó em semi-fusa”...
Impacientava-se já e pôs-se a beber uns copos para ver se acalmava os nervos. Qual quê! Começaram os dedos a falhar mais teclas. E ela naquele diabólico teclar: falhava o dó em semi-fusa e bebia um shot. Tentava de novo e falhava outra vez...? bota-abaixo mais uma rodada! Deveras comecei a tornar-me apreensivo. Hesitava porém em intervir, mas foi ela própria quem se encarregou de rebentar o tom: sem pré-aviso ou notificação alguma, interrompeu a sequência harmoniosa das notas silabadas pelo piano e simplesmente se pôs a bater no teclado com os punhos cerrados em ira.
Ao fim de alguns minutos parou. Fez-se silêncio pela casa e eu escutava agora e apenas o meu coração trotando a todo o galope. Gelara, mal me atrevia a respirar... mas não contive um espirro. Oh meu deus! O que acabara de fazer...? Ela ergueu os olhos e cravejou-os nos meus. Ainda tentei balbuciar qualquer coisa, mas o que quer que pudesse ter querido dizer foi imediatamente submerso pela torrente de insultos que a rapariga da biciclete vermelha despejou impiedosamente sobre mim, servindo-se sem parcimónia e com bastante suculência de todo o radical jargão feminista que tinha à sua disposição para me injuriar...
“Mas até quando terei que ser oprimida pela tua superficialidade pequeno-burguesa, meu pequeno cabrão?” - A esta abertura sinfónica seguiu-se mais uma longa espiral de invectivas que prefiro (por pudor) nem sequer relatar... mas como não lhe desse resposta, ela também não perdeu a deixa e não perdi eu pela demora:
“Nem muges, nem tuges! Caladinho que nem um rato,não é? E enquanto me degrado musicalmente dum modo que a tua ignorância jamais, ouviste bem? Jamais poderá compreender ou suspeitar... que fazes tu, minha grande besta...? Nada! Pior que nada: ficas para aí a rabiscar versitos, é o que sabes fazer. Ou melhor! Aquilo que gostarias de conseguir talvez um dia... Poeta... ahahahahah. poeta de maus versos, só pode! Pois onde já se viu nos dias de hoje a poesia rimar...? Por favor, não me faças rir… que isto não está para risos, nem para bacocos lirismos de algibeira! Pois enquanto me afundo, cai comigo e atrelado em mim um peso-morto do tamanho... do tamanho... mas que importam pormenores? Um peso-morto? Não! Pior que um fardo! Foda-se! As palavras aí estão para serem usadas: há alturas em que és pior que um estafermo e vejo somente em ti um porco escarafunchando na lama em que me atolo, revolvendo-se nos restos de uma fantasia desenxabida e alimentando-se com a minha demência, decadência e desventura! Ah credo! Até quando vou permitir este vexame, esta contínua e quotidiana humilhação às mãos duma espécie de Oscar Wilde das bicicletes wanna be?”
E como eu nada respondesse... Ela, enfurecendo-se mais ainda, começou a vibrar a sentença como se de um chicote se tratasse... “A culpa é tua, estás a ouvir? A culpa é toda tua, toda tua, toda tua. Toda tua!” - Estava agora nitidamente perturbada, agitava-se muito e espumava já da boca quando se lançou a mim. Na minha inocência ainda julguei que ia ser abraçado. Era bom era! Abraçou-me foi o pescoço - foi o que ela abraçou! - cerrando em torno das minhas goelas os seus longuíssimos e endurecidos dedos de tanto tocar o piano.
“A culpa é toda tua, toda tua, toda tua!”
Estava possessa, atirou-me ao chão e esmagava-me já o peito com os seus joelhos, enquanto as mãos me estrangulavam o pescoço. “Toda tua! Toda tua!” a minha nuca batia contra o soalho, “a culpa é toda tua!” e os meus olhos turvados viam tudo a dissipar-se quando, de repente... a rapariga da biciclete vermelha se levantou. Sim! Ergueu-se muito alta e muito hirta, e mirando-se os dedos, mirando-me a mim, tornando o olhar para os seus dedos e vendo-me estendido no chão, exclamou enfim extenuada, com a voz toldada de dor: “escreve escriba, escravo da escrita, escreve!”
E seguidamente...? Bom, a seguir revirou os olhos, caiu redonda e sem outro apelo nem mais agravo, dramaticamente desmaiou em cima de mim.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Falha-me o dedo mindinho num dó em semi-fusa
E um pequeno
milagre deu-se! As garrafas de macieira duravam dois dias e passámos a comer
fruta com regularidade! Metodicamente também, a rapariga da biciclete vermelha começou a ensaiar, teclando
desenfreadamente o bendito e encomendado concerto. Aquilo era como um
incessante loop musical dia e noite, enchendo o apartamento com notas musicais
e, embora fosse preciso enchê-la com notas das outras, eu vogava na melodia
tocada, olhando para o tecto em suspensos suspiros.
Para mim era o perfeito
e sonhado amor preenchido de sonetos e sonatas: ela tinha a música na ponta dos
dedos e tinha-me na palma da mão. Mas como eu também não percebia nada sobre
composição musical, aceitava talvez demasiado levianamente que ela explodisse num misto de
horror e pânico: “falha-me o dedo, falha-me o dedo mindinho num dó em semi-fusa numa passagem
mais traiçoeira. Falha-me o dedo mindinho”...
sábado, 19 de janeiro de 2013
O segredo da rapariga da biciclete vermelha...
Para minha
grande surpresa e apesar de tudo, os piores temores não se confirmavam: o fígado
aguentava bem e nos primeiros tempos não se verificaram turbulências melodramáticas
ou crises existenciais de espécie alguma. Tínhamos as nossas diferenças, claro
está: ela pedalava numa vintage pedaleira que fora herdada e eu numa estradista
comprada em grande superfície; a miúda marimbava-se prás afinações, mas eu oleava a corrente
de transmissão servindo-me, para aprimorar, duma velha escova de dentes; ela
descia as colinas de Lisboa desalmadamente e eu borrava-me com os carris do Eléctrico. Já
para não falar das macieiras!! A rapariga da biciclete vermelha impunha a
pedalada e eu acabava de gatas.
E todavia, havia
uma química entre nós: éramos capazes de beber horas e horas seguidas, polemizando
amistosamente sobre tudo e sobre nada: “compositores românticos ou barrocos?”,
“poesia surrealista ou lírica trovadoresca?”... “capacete, sim ou não?”. Podem
bem imaginar quem é que nem sequer reflectores levava por libertário desleixo...
não?
Ela marcava o
ritmo e eu, embalado plo seu temerário? irreflectido? provocador? exemplo...
deixava-me ir na esteira do seu mau comportamento. Quando tergiversava ela
chamava-me “burguês”. E eu todo enrubescido, reclamava protestos tonitroantes que
eram logo amansados, quando ela, com um sorriso rasgado, me acariciava o rosto
e me beijava os olhos, sussurrando-me o conforto de ser o seu exclusivo alvo de
“terrorismo sentimental”...
Por essa altura
vivíamos de esquemas e éramos felizes: não por acaso, a macieira sempre foi tida
como o uisqui dos pobres, os nossos luxos eram escassos e a combinação ovos +
atum revelava-se surpreendentemente calórica. Tínhamos amor e duas biclas! Mais
o apartamento dum senil avô encurralado num conveniente lar de idosos - o que também
dava um certo jeito... reconheço! Binávamos e fazíamos planos: descer a costa
vicentina, seguir plos caminhos até Santiago... atravessar o mundo em duas
rodas... Mas numa manhã de Maio, o carteiro - tal como no filme - tocou duas
vezes. E o novelo desta estória começou realmente a desenrolar-se..
E precipitou-se porque
a rapariga da biciclete vermelha não deixara de ser quem era: uma virtuosa pianista!
E se há certos talentos que se podem conservar indolentes no torpor dos dias
sem definido horizonte... eis que basta algo ou alguém vir agitar a campânula dum
exílio forçado, para que todo o talento criador latente se transfigure em viva e
indomável força criadora!
É certo! Como já
podem ir calculando, as minhas inseguranças viriam a jogar um papel não despiciente... mas como poderia ser de outra forma se ela era uma virtuosa
pianista e eu não passava dum pobre poeta de maus versos...? Quando a carta chegou e as boas novas foram
por ela lidas com emoção e júbilo, decidimos logo e ali mesmo despejar uma
garrafa de macieira a meias, fruindo felizes e em pleno contentamento, mas
agora... agora esvazio uma garrafa a sós, enquanto escrevo inconsolável estas
linhas plenas de saudade, com a mais negra tinta da auto-comiseração...
À rapariga da
biciclete vermelha, capaz dos mais rendilhados prodígios teclados num piano, os
antigos mestres lançavam-lhe de novo a mão... a ela que, desde certo incidente
protocolar com a Primeira-dama, se julgava (irremediavelmente?) caída em
desgraça.
Nesses tempos
ela não bebia... ou não bebia tanto, plo menos...! Mas não usarei de eufemismo, nem
meias verdades, pois o que de seguida irei relatar, mais palavra, menos
pontuação, é nem mais nem menos o terrível episódio que a lançara (a ela,
virtuosa pianista!) numa espiral de auto-destruição...
Estava agendado
um banalíssimo concerto de câmara como tantos outros haviam sido anunciados antes mas,
para espanto geral, para aquela específica actuação iria estar presente a
Primeira-dama! E de súbito, a ansiedade apertou… apertou muito até ao dia do
concerto.
Naquele que viria a revelar-se um fatídico dia, a rapariga da
biciclete vermelha comera uns rissóis para acompanhar as macieiras que despejara
para ganhar nervo e entrar em palco. Sentia-se um pouco indisposta mas
aguentou-se bem. Só quando no fim do concerto foi cumprimentar a Cavaca é que o
drama se precipitou... Talvez porque ela não se sentisse tão forte no cravo
como no piano, ou talvez porque os rissóis estivessem estragados ou as macieiras
houvessem sido realmente demais pela vez primeira… O que é certo é que ao invés
da rapariga da biciclete vermelha, no fim do concerto, declarar respeitosamente
“foi um prazer dar-lhe Bach”... simplesmente acabou por vomitar cá para fora um
grande “baargh!” – salpicando com as suas entranhas e aquela espécie de bucha
que tomara antes da actuação, o pindérico mas igualmente caríssimo vestido
azul-turquesa da Primeira-dama. Foi um escândalo e um “ai Jesus!”, a virtuosa pianista
tresandava a álcool e a Cavaca não foi de modas (nunca o fora, de facto!):
mexeu os cordelinhos e saneou-a.
Saneou-a até àquele dia em que o carteiro tocou duas vezes, deixando uma carta com a promessa do fim dum pesado pesadelo...
Ou talvez não! Porque a rapariga da biciclete vermelha iria ter de prestar provas
da sua reabilitação com uma suite de Rachmaninoff... E a música para piano de Rachmaninoff
meus amigos... a música para piano de Rachmaninoff tinha a sinistra e lendária reputação de afectar o sistema nervoso às senhoras – como de
resto, aliás! iríamos experimentar na carne...
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